O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo

Clarice Lispector

O que as pessoas vêem é determinado pela posição que ocupam. Elas naturalmente vêem coisas a partir da própria perspectiva, não pela dos outros, inclusive a sua

John Maxwell


Mercado

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Conhecimento, estudo, pesquisa, relacionamento e assessoria comercial são premissas para o sucesso na compra de animais nos Estados Unidos

O médico veterinário Dr. Hernani Azevedo Silva Neto é um dos maiores conhecedores de cavalos de Corrida no Brasil. Certa feita, ele redigiu um simples manual de importação de cavalos dos Estados Unidos, publicado no Portal InfoHorse, veículo de Comunicação de Marcelo Pardini, no ar de 2012 a 2018. O rico material é reeditado a seguir:

Foto cedida
Dr. Hernani vivencia o Quarto de Milha e o Puro Sangue Inglês há vários anos

Comprar cavalos nos Estados Unidos é um procedimento antigo e que tem se tornado frequente nos últimos anos, especialmente no Quarto de Milha. Para entrar neste comércio, algumas regras devem ser levadas em conta. Primeiramente, devemos seguir a cartilha de normas de importação da ABQM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha), cujo conteúdo está disponível no site da entidade (www.abqm.com.br). Tais diretrizes, na verdade, são imposições do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), com o intuito de preservar o mercado. Por isso, há variações entre as normativas para cada raça.

Em relação aos cavalos de Velocidade, seja para corrida ou para prova, as exigências variam de acordo com a idade do animal. Isso é muito importante salientar, pois não são poucos os casos de pessoas que, por impulso, arremataram equinos em leilões nos Estados Unidos e depois não puderam trazê-los, uma vez que tais produtos não se enquadravam às normas.

Atualmente, os melhores comerciantes norte-americanos conhecem nossas regras e isso serve como propaganda na venda do animal. No futuro, não será surpresa se nos próprios catálogos dos leilões constarem os dizeres “qualificado para importação para o Brasil” ou até mesmo um selo “aprovado para o Brasil”. Acho imprescindível o auxílio do agente, que é um profissional normalmente radicado no país de origem do animal, conhecedor dos trâmites e, principalmente, das artimanhas do comércio de cavalos. Muitas vezes, mesmo para os que falam fluentemente o inglês, alguns detalhes passam despercebidos, pois há muitos termos técnicos.

Não são poucas as histórias de animais comprados por brasileiros com problemas físicos anunciados durante os leilões e que só foram notados posteriormente. Em minha vasta vivência com as raças Puro Sangue Inglês e Quarto de Milha, presenciei várias delas, como cavalos inteiros anunciados como inférteis, éguas com um só ovário, animais com fraturas ou com patologias que atrapalham ou inviabilizam a importação. Entender que um equino é castrado e engolidor de ar é uma função fácil, mas muitos outros aspectos se escondem atrás das mensagens daqueles leiloeiros que falam super rápido. Os animais oferecidos para o Esporte podem ser radiografados antes do pregão e as imagens ficam à disposição dos possíveis compradores. Mas não são permitidas radiografias depois do evento, não sendo aceitas reclamações posteriores, pois as alterações são comunicadas pelo leiloeiro e transmitidas no painel que se encontra na entrada do tatersal.

Outra forma que vem sendo muito utilizada é a compra de animais nos páreos de “Claiming”, que são corridas em que o animal corre com um preço pré-estabelecido. O que muitos não sabem é que o risco é por conta do comprador e não há nenhuma garantia, bem como não são avisados quaisquer problemas que o animal apresente. Na verdade, trata-se de páreos com animais de categoria inferior, cujo objetivo é enturmá-los e não comercializá-los.

Já vi pessoas se vangloriando de pechinchas, sem, no entanto, perceberem que compraram um cavalo lesionado ou mesmo com fratura. Tenho na memória alguns casos engraçados: um grande entendedor (e sabia do riscado!), comprou uma potra com um “chip in the hock” bem barata e não entendia o porquê. Quando avisado que a mesma tinha uma fratura e que o haviam informado, ele não se conformou, pois acreditava que o tal do “chip” era o que a deixava barata. Já outro grande entendedor (e veterinário!) comprou um cavalo de 06 anos, múltiplo ganhador, com genealogia mais do que perfeita, por pouco mais de US$ 10 mil. Trouxe o garanhão ao Brasil e o cotizou por alta soma. Passados alguns meses, nenhuma égua prenhe... O animal era infértil! O jeito foi levá-lo de volta para os Estados Unidos, pois ele havia sido trazido para a Reprodução e nem competir por aqui ele poderia.

Outra história pitoresca aconteceu quando um grande criador brasileiro de cavalos Quarto de Milha chegou num famoso criatório dos Estados Unidos acompanhado de uma propensa criadora. Chegando lá, a dona do rancho apresentou uma irmã-própria de um grande campeão, aí veio a boa e velha pergunta: “quanto custa?”. A criadora prontamente respondeu um valor bem além do que o produto valia. E logo veio a resposta da brasileira: “pra mim está bom”. O velho criador piscava no intuito de que a moça percebesse que era muito caro, mas ela insistia que estava bom. Resultado: sem nenhuma contra-oferta, a jovem se tornou proprietária de uma irmã de um campeão, que não deu em nada e nem para o Brasil veio após a frustrada campanha.

E os custos? A viagem aérea é de aproximadamente US$ 5 mil (podendo variar, caso o cavalo venha com outros no contêiner) e os gastos com despachante são da ordem de US$ 3,5 mil. Lembrando que todas as despesas, inclusive as de compra do equino, devem ser pagas à vista. Os animais chegam ao aeroporto de Viracopos, onde são submetidos a exames por um veterinário do MAPA e, normalmente, liberados no mesmo dia.

Em resumo, reforço que estudo, pesquisa, conhecimento, relacionamento e assessoria comercial são premissas para que você tenha sucesso na compra de animais nos Estados Unidos. Seguindo tais dicas, creio que você terá êxito na empreitada. Bons negócios! 


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